O café estava amargo, sem açúcar e passou do ponto.
O café viciava como um beijo largado a muitos anos.
O café revigorava o sono como uma paixão inicial.
O café era forte como o toque de alguém importante.
O café era lembrado diariamente como lembranças que um dia foram realidade.


                    Era fácil falar dos outros. Era fácil falar do que não sentia. Era fácil apontar o que não pertencia. Era fácil projetar o que não queria. Era fácil  olhar ao espelho e notar o quanto ela mudou.
Ela mudou. Havia algo estranho e diferente nela ao mesmo tempo. Havia algo único e uma luz própria que invadia o corpo e dava-lhe presença  e a revelação  do onipresente no coração  alheio. Era tão fácil  decair na insegurança, possessividade e ciúmes loucos, bem como emergir da controle. Ela queria constância em si mesmo e decisões  firmes sem medo da mudança  e do que precisa ficar.
Ela olhou no espelho e notou que precisava  de si própria  e isso bastava. Ela era anjo e ao mesmo tempo cheia de defeitos. A fase princesa foi embora e ficou  o ar leve e a pluma do olhar de quem bastava por si mesma. Ela sorriu e vislumbrou no espelho o único  amor da sua vida, ela própria.


Ele provocava até o que não existia na eternidade de arrepios na pele que ansiava por beijos leves como quente e intenso, bem como fazia sentir o que nunca permitia sentir por muito tempo como algo grande dentro do peito e eternizava num sorriso mais tolo. Ele parecia um espelho que voltava-se a ela em defeitos iguais e comportamentos idênticos. Na verdade, lidar com ele era o mesmo que lidar com ela. Os momentos foram acontecendo e proporcionando discussões e entendimentos, bem como confiando a ponto de fortalecer o laço de amizade. Os amigos tendiam a se intrometer, mas cabia somente a ela decidir.
Ela decidiu ficar mesmo sendo difícil. Ela decidiu ficar mesmo com o egoismo. Ela decidiu ficar mesmo quando ele mostrou que não é nenhum príncipe encantado. Príncipes não existem, na verdade, as pessoas tinha vontades próprias, defeitos e qualidades. Ele era um bom ouvinte, bem como carinhoso,  as vezes contraditório.
Ela não tinha controle do rumo que os comportamentos ocorriam, mas ela finalmente entendeu que tinha que se colocar em primeiro lugar e viver a sua vida normalmente e o resto a vida mostraria como se aproximar.
Não adiantava  esperar pela ligação do dia, o segredo era viver sua própria vida que as surpresas decorreriam, bem como mesmo com o medo deveria fazer o que estava afim de fazer. O medo da perda assolava, mas a vida mudava e não se poderia controlar tudo.
Ela havia mudado e não queria ser o nó de ninguém, só queria deixar ele livre para escolher se iria continuar ou se iria partir. O importante era ela continuar inteira independente da escolha dele.
Ele era os pensamentos do dia, ele era o desabafo das escolhas dela, ele era o amigo que ela ganhou, ele era constância e morada de bons sentimentos, ele era defeitos e qualidades, ele era a aventura mais doida que já aconteceu com ela.
Ela sentia dona do próprio nariz e ele finalmente existiu.


Os medos ainda persistiam, bem como a ansiedade que assolava a cada momento e criava situações que não existiam. Nunca existiu. A existência era temporária afinal a permanência causava sofrimento e ela não queria sentir.
Ela não queria sentir medo. Ela não queria sentir desassossego. Ela não queria sentir perda do controle da situação. Ela não queria as mudanças que assustavam. Ela não queria viver mais aquilo. Ela não queria gostar, se apaixonar ou amar alguém e tampouco que alguém permanecesse em sua vida por muito tempo porque aquilo assustava e dava medo.
Então, ela perdia-se em rolos temporários e caras que partiriam rapidamente. O incerto a assustava, bem como o certo a fazia perder o controle e sentir alguma coisa que a deixava sem defesa alguma. Era como se pudesse tocá-la profundamente, quando na verdade ela queria se afastar e comprar qualquer desculpa para fugir.
O temporário era sua zona de conforto. Já, o permanente a fazia sair da zona de conforto e permitir o toque. Nada tinha controle e tudo acontece porque deve acontecer. O tempo muda as pessoas bem como transmudam as pessoas de posição. Se a Terra gira, as pessoas giram, os acontecimentos giram e avançam para aprendizado.
O controle e a infantilidade eram as maiores armas para enfrentar o medo da perda e rejeição. No entanto, no limiar da situação, existiam outras formas de viver que era permitir que tudo acontecesse na maior paciência do mundo e apesar dos gatilhos do medo, ser feliz é possível, bem como encontrar formas de lidar com os temores e meios de mostrar quem realmente era através da permissão da aproximação das pessoas e viver para si própria em primeiro lugar.
Nada melhor que perder o medo e finalmente descobrir que quem realmente importa é a si própria.
A perda é colocar-se em primeiro lugar e quando for olhar no espelho e sustentar o olhar, não se rejeitar e buscar formas de se amar do jeito que é.
Só ela que importava e isso bastava.


Inspirada no ardor do sentimento ela correu. Correu em campos alísios. Ele era o vento. E ela os campos floridos. Ela lhe dava beleza. Ele inspiração. Eles eram um só. Portanto, ele não existia.
             Ela existia. Isso bastava...


os: republicação. Amo esse texto. https://garotaacorda.blogspot.com.br/2010/10/ele.html


Na ponta dos pés, equilibrando na corda bamba, de olhos fechados, recordou do passado e refletiu o presente. Na ponta dos pés, engasgou com a garganta as palavras que queriam ser ditas, mas foram silenciadas pelo tempo perdido. Constante fuga dos outros e fuga de si mesma. Na ponta dos pés, as mãos sob a cabeça, presenciou a dualidade em vontades distintas, mas no fim das contas não ocorria decisões e as indecisões permitiam as fugas.
A fuga criava cenários românticos bem como a ansiedade propiciava memórias que nunca existiram e nunca irão existir. A decisão requer pés no chão, a decisão não se importa com bobagens e não cria expectativas, a decisão intui os sentimentos, a decisão aproxima da felicidade porque faz o que é bom para si, a decisão se impõe, a decisão chora, a decisão machuca e talvez dói, mas a decisão não aperta em nó, a decisão não depende da decisão alheia, e a decisão traz paz.
Na ponta dos pés desatou cada nó preso e se viu livre para viver no equilíbrio da corda bamba e a cada tropeço levantou e aprendeu alguma coisa. Na ponta dos pés, ela sorriu e esquentou o corpo gélido com uma gargalhada esquecida. Na ponta dos pés, retornou aos antigos hábitos que refletiam o bem estar. Na ponta dos pés, aceitou os comportamentos dos outros e que nada pode ser controlado. Na ponta dos pés, aprendeu a não se importar e buscar se vestir e comportar da maneira que se sente melhor. Na ponta dos pés sentiu a leveza do olhar de quem carrega o mundo nas costas e consegue colocar os pés no chão e viver um dia de cada vez e compreender que basta a si mesma.
Foi aí que desatou o nó e encontrou no fim a si própria e era isso que verdadeiramente importava.


        A música nunca deveria ter acabado. O salto nunca deveria ter quebrado. O batom nunca deveria ter borrado. O vestido nunca deveria ter ficado justo e meticulosamente decotado. O cabelo nunca deveria ter bagunçado. A bolsa nunca deveria ter soltado a alça. O dinheiro nunca deveria ter acabado. O corpo nunca deveria ter ficado frio. Os dedos nunca deveriam estar expostos. O sutiã nunca deveria ter folgado. O corpo nunca deveria ter engordado. O corpo nunca deveria ter mudado. A yoga nunca deveria ter sido feita. O riso nunca deveria ter sido fácil. Os sentimentos nunca deveriam ser exaltados. O cara nunca deveria ter aparecido.
      A dualidade nunca deveria estar presente.
      Ela infiltrava em si própria. O medo enlouquecia em ares sonhadores e matizadores. O medo trazia a tona comportamentos complexos e a bonequinha de porcelana. A insegurança gaguejava em palavras não ditas ou presa na garganta. O medo da perda procurava criar raízes dependentes dos outros e da opinião que não era sua.
     Ninguém conseguia entender. Ninguém nunca deveria ter dito. Ninguém nunca deveria controlar os outros. Ninguém deveria nada.
      Ela resgatou a independência em raízes passadas. Ela recrutou o eu de antigamente e progrediu em opinião própria e pulso firme. Ela não mudou essência, mas se questionou e questionou os outros. Calou-se quando estava errada e admitiu quando errou, entrementes, aprendeu que não se deve narrar tudo da vida nem aos melhores amigos e deve ser dona do próprio nariz.
     Ela compreendeu que a música deveria ter acabado. Ela compreendeu que o salto deveria ter quebrado. Ela compreendeu que o batom deveria ter borrado. Ela compreendeu que o vestido deveria ter sido justo e decotado. Ela compreendeu que o cabelo deveria ter bagunçado. Ela compreendeu que a bolsa deveria ter soltado a alça. Ela entendeu que o dinheiro deveria ter finalizado. Ela entendeu que o corpo deveria ter ficado frio e os dedos seriam expostos. O sutiã deveria ter folgado. O riso deveria ter sido fácil bem como os sentimentos ruins ao receber criticas pesadas era natural, entretanto ao lidar com isso ela revidava e não entreouvia calada. Os sentimentos seriam exaltados e o cara deveria ter aparecido. A yoga deveria ser feita bem como o corpo naturalmente transmudaria.
        A dualidade era constante, a frustração era natural, bem como o aprendizado nessa vida elevava em maturidade. As pessoas podem se expressar como quiser e da pitaco como for, entretanto, a dona da vida era ela e no fim das contas a decisão final sairia dos seus lábios.
        Nada de cobranças, gratidão em primeiro lugar, amor pela individualidade e pelo que gostava de fazer diariamente. Esvair-se da dependência e permitir o novo de modo que  iria viver a vida no momento certo.
        Encerram-se ciclos e iniciam outros.